Definição de continuidade por conjuntos abertos

Uma função \( f : X \to Y \) é contínua se, e somente se, para todo ponto \( x \in X \) e todo conjunto aberto \( U \subset Y \) que contenha \( f(x) \), existe uma vizinhança \( V \) de \( x \) tal que \( f(V) \subset U \).

Essa é a chamada definição topológica de continuidade. Ela expressa a ideia de que a função preserva a estrutura dos conjuntos abertos: sempre que tomamos um aberto no contradomínio, sua imagem inversa no domínio também é um aberto.

De forma equivalente, podemos dizer que uma função \( f : X \to Y \) é contínua quando, para todo aberto \( U \subset Y \), o conjunto \( f^{-1}(U) \) é aberto em \( X \).

ilustração da continuidade definida por conjuntos abertos

Em termos diretos: a imagem inversa de qualquer aberto do contradomínio é um aberto no domínio. Essa formulação não depende de distâncias nem de limites numéricos, mas apenas da estrutura topológica dos espaços envolvidos.

Observação : Esse resultado também é conhecido como equivalência das definições de continuidade, pois conecta a definição topológica com a definição analítica baseada em \(\varepsilon\)-\(\delta\). Na linguagem do cálculo, dizemos que uma função \( f \) é contínua em \( x_0 \in \mathbb{R} \) se, para todo \(\varepsilon > 0\), existe \(\delta > 0\) tal que, para todo \( x \in \mathbb{R} \), se \( |x - x_0| < \delta \), então \( |f(x) - f(x_0)| < \varepsilon \). Embora as abordagens sejam diferentes, elas são matematicamente equivalentes.

A continuidade também pode ser caracterizada por conjuntos fechados: uma função é contínua se a imagem inversa de todo conjunto fechado é fechada. Como abertos e fechados são noções complementares na topologia, ambas as formulações descrevem a mesma propriedade.

Um exemplo concreto

Considere a função \( f : \mathbb{R} \to \mathbb{R} \) definida por \( f(x) = x^2 \).

Vamos verificar sua continuidade utilizando a definição por conjuntos abertos.

Escolha um aberto do contradomínio, por exemplo \( U = (1, 4) \), o intervalo dos números reais estritamente entre 1 e 4.

intervalo aberto de exemplo nos números reais

Primeiro, determinamos a imagem inversa desse conjunto. Procuramos todos os \( x \in \mathbb{R} \) tais que \( x^2 \in (1, 4) \).

Isso significa resolver a desigualdade:

$$ 1 < x^2 < 4 $$

O que é equivalente a:

$$ 1 < |x| < 2 $$

Portanto,

\( x \in (-2, -1) \cup (1, 2) \),

que é um conjunto aberto em \( \mathbb{R} \). Logo, \( f^{-1}(U) \) é aberto.

Agora escolhamos um ponto específico, por exemplo \( x = 1{,}5 \), que pertence a \( f^{-1}(U) \).

Calculamos:

$$ f(1{,}5) = 2{,}25 $$

Como \( 2{,}25 \in (1, 4) \), o ponto está corretamente associado ao aberto escolhido.

verificação pontual da continuidade no gráfico da função quadrática

Buscamos então uma vizinhança de \( 1{,}5 \), por exemplo:

\( V = (1{,}4, 1{,}6) \).

vizinhança aberta em torno do ponto 1,5

Calculamos as imagens das extremidades:

$$ f(1{,}4) = 1{,}96 \quad \text{e} \quad f(1{,}6) = 2{,}56 $$

Assim,

\( f(V) = (1{,}96, 2{,}56) \subset (1, 4) \).

Isso mostra que existe uma vizinhança de \( x \) cuja imagem permanece dentro de \( U \). Esse raciocínio vale para qualquer ponto do domínio. Portanto, concluímos que a função \( f(x) = x^2 \) é contínua em todo \( \mathbb{R} \).

Observação : A continuidade deve ser verificada em todos os pontos do domínio, e não apenas em um caso isolado. Trata-se de uma propriedade global. No caso de \( f : \mathbb{R} \to \mathbb{R} \), é necessário garantir que, para todo \( x \in \mathbb{R} \) e todo aberto que contenha \( f(x) \), exista uma vizinhança de \( x \) cuja imagem esteja contida nesse aberto.

Demonstração da equivalência

A equivalência entre as duas formulações pode ser demonstrada em duas etapas.

A] Da definição por abertos para a definição por vizinhanças

Suponha que \( f \) seja contínua no sentido topológico, isto é, que a imagem inversa de todo aberto seja aberta.

Dado um ponto \( x \in X \) e um aberto \( U \subset Y \) que contenha \( f(x) \), considere \( V = f^{-1}(U) \).

Como \( f \) é contínua, \( V \) é aberto em \( X \). Além disso, \( x \in V \) e, por definição, \( f(V) \subset U \). Logo, existe uma vizinhança de \( x \) cuja imagem está contida em \( U \).

B] Da definição por vizinhanças para a definição por abertos

Suponha agora que, para todo ponto \( x \in X \) e todo aberto \( U \subset Y \) contendo \( f(x) \), exista uma vizinhança \( V \) de \( x \) tal que \( f(V) \subset U \).

Queremos mostrar que, para qualquer aberto \( W \subset Y \), o conjunto \( f^{-1}(W) \) é aberto em \( X \).

Seja \( x \in f^{-1}(W) \), isto é, \( f(x) \in W \). Pela hipótese, existe uma vizinhança \( V_x \) de \( x \) tal que \( f(V_x) \subset W \). Isso implica que \( V_x \subset f^{-1}(W) \).

Assim, cada ponto de \( f^{-1}(W) \) possui uma vizinhança aberta contida nesse conjunto. Portanto, \( f^{-1}(W) \) é aberto em \( X \).

Conclusão

As duas formulações são rigorosamente equivalentes. A continuidade pode ser definida tanto em termos de imagem inversa de abertos quanto em termos de vizinhanças, e ambas capturam a mesma ideia fundamental: a função preserva a estrutura topológica dos espaços.

 


 

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